Moradores de Raqqa, a cidade mais castigada da Síria, culpam EUA por abandono

Internacional
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Raqqa está em ruínas. A cidade escolhida pelo líder do Estado Islâmico, Abu Bakar al Baghdadi, para ser o centro de seu califado se transformou em um amontoado de concreto, metal e cadáveres. Mais de 80% das estruturas da cidade foram destruídas pelos ataques aéreos comandados pela coalizão internacional liderada pelos Estados Unidos na batalha que expulsou a organização terrorista daqui, entre junho e outubro do ano passado. Nas ruas cobertas de poeira, homens tentam remover os destroços dos prédios com picaretas, pás e com as mãos. Sob o que restou dos edifícios e casas, estima-se que estejam cerca de 2 mil corpos.

A cidade permanece sem água, luz e qualquer tipo de comunicação. Não há sinal de celular, conexão por telefone ou internet por satélite disponível para quem vive aqui. Tratores transformados em carros-pipa improvisados cruzam as ruas empoeiradas oferecendo água retirada diretamente do rio Eufrates. É a única disponível para beber, cozinhar e tomar banho. Crianças circulam entre as casas que não vieram completamente abaixo em busca de peças de metal nobre para vender a cerca de US$ 0,50 o quilo, correndo o risco de serem mortas pelas milhares de bombas que ainda não foram desativadas. A cidade, que foi a capital do califado abássida no século 8 e o mais importante centro político e religioso do Estado Islâmico, transformou-se em um cenário apocalíptico impressionante.

Nesta guerra brutal que já deixou quase meio milhão de pessoas mortas e um avassalador rastro de destruição, nenhuma cidade síria foi tão castigada quanto Raqqa. Nem Aleppo, nem Homs, nem Douma. Ainda assim, milhares de pessoas estão voltando para cá. Estão cansadas de viver em campos de refugiados ou na casa de parentes. Sem dinheiro para pagarem aluguel, muitas famílias estão ocupando as ruínas do que um dia foi uma casa ou um apartamento. Diante de tantas dificuldades e quase nenhum auxílio externo, há uma sensação crescente de raiva e revolta direcionada em especial aos Estados Unidos e sua coalizão, vistos como os responsáveis pela destruição de Raqqa. A frágil estabilidade conquistada após a expulsão do Estado Islâmico nesta parte da Síria parece cada vez mais ameaçada.

Marwan Isa, um homem de 60 anos careca e sem barba, chega aos berros, gritando em inglês. “Por quê?”, me responde. “Por quê?”, diz ele exaltado, apontando para um edifício sem paredes externas, como se toda a fachada tivesse sido arrancada de forma cuidadosa. “Por que vocês fizeram isso com a gente? Onde estão os que destruíram tudo, onde está a ONU, os Estados Unidos?”, continua ele ainda exaltado. Diante da falta de respostas, inicia uma intensa e desconexa narração de sua vida nos últimos meses. Sua mulher morreu no segundo andar do prédio que ele aponta, em um ataque aéreo incendiário, nos primeiros dias do avanço final das tropas curdas e árabes apoiadas pelos Estados Unidos para expulsar o Estado Islâmico daqui. “Nunca imaginamos que eles iriam destruir nosso prédio, não havia Daesh, éramos só civis, gente que não se metia com eles”, diz ele, utilizando a palavra em árabe que todos na região usam para se referir ao Estado Islâmico. Ele se emociona quando fala da mulher. “Eu mesmo a tirei de lá, morta, mas não consegui lhe dar um enterro decente. Os bombardeios não paravam nunca.”

Isa conta que fugiu com centenas de outros civis para uma área que havia sido abandonada pelo Estado Islâmico. De lá, seguiu a rota dos refugiados e ficou abrigado por cinco meses em um campo no deserto. Voltou há dois. Encontrou o que sobrou de sua casa sem nada dentro. Está vivendo ali, com um colchonete e alguns poucos utensílios de cozinha. À noite faz uma fogueira para se aquecer e ferver a água para o chá. “A que ponto chegamos, não temos nada. Sou engenheiro e estou retirando entulhos com as mãos para poder comer”, me fala já cansado após a explosão de raiva. “Estamos abandonados, ninguém vem a Raqqa nos ajudar.”

Pelos cálculos do Conselho Civil de Raqqa, a autoridade central da cidade, neste momento mais de 100 mil pessoas já retornaram para cá. A maior parte delas está vivendo como Isa, no que restou de seus lares. Aqueles que têm algum dinheiro estão fazendo reparos ou mesmo reconstruindo suas casas. Querem voltar o mais rápido possível para fugir dos campos ou do aluguel ou impedir que algum invasor que teve sua casa destruída tome conta de alguma que esteja em melhor condição.

Ninguém sabe exatamente o número de pessoas que ali viviam durante os quase quatro anos de domínio do Estado Islâmico, mas estima-se que a população contasse entre 300 mil e 400 mil moradores. “Mais de 80% das habitações foram destruídas e há muita gente ainda para voltar. Esse é o ponto de maior dificuldade hoje. Não há casa para todos”, diz Halean Ahmed, 22 anos, uma espécie de subsecretária do Conselho Civil de Raqqa. Halean, como qualquer um que ocupa cargos oficiais aqui, faz questão de enaltecer os feitos das Forças Democráticas Sírias, as milícias árabes e curdas que os Estados Unidos aglutinaram sob seu comando para combater o Estado Islâmico. “As coisas estão melhorando dia a dia. As pessoas reclamam porque não entendem que não se faz tudo da noite para o dia”, diz ela, refutando que haja uma tensão crescente na cidade por causa da demora na reconstrução da infraestrutura básica. “As pessoas precisam aceitar que esse é o ano zero de Raqqa. Estamos começando de novo, uma vida nova”, diz ela sentada sobre uma pedra no que era a sala de aplicações da farmácia de sua família, na região central da cidade, hoje completamente destruída. Questionada se acha que a absoluta destruição da cidade foi um preço justo a ser pago para se ver livre do Estado Islâmico, ela apenas sorri.

A poucas centenas de metros dali, Mohamad Mustafa, de 40 anos, está terminando a reforma se seu apartamento. O complexo de prédios onde ele vive há 20 anos foi atingido por uma série de ataques aéreos. Alguns desabaram, outros se mantiveram intactos, mas a maior parte deles está severamente comprometida. O prédio de Mustafa foi atingido por um míssil na parte central, mas apenas os andares superiores ficaram destruídos. Seu apartamento estava apenas queimado e com as portas e janelas estragadas. Mesmo com o buraco de mais de 5 metros de diâmetro no teto do prédio, ele garante que está tudo seguro, sem risco de desabamento. “Em um mês, eu termino e volto para cá com minha família. Nós tivemos sorte, muitos dos nossos vizinhos não”, conta, apontando para um prédio ao lado que veio abaixo com os bombardeios. Pelas suas contas, pelo menos 20 corpos estão soterrados ali.

Não há um cálculo oficial sobre o número de mortos em Raqqa, que varia de acordo com a fonte. Mas há um consenso de que o número de vítimas militares e civis chegou próximo de 10 mil nos quatro meses de campanha. O número de civis mortos deve ter alcançado entre 3 mil e 5 mil pessoas. De acordo com estimativas do Conselho Civil de Raqqa, cerca de 2 mil cadáveres, de civis e combatentes do Estado Islâmico, ainda não foram recuperados. A maior parte deles está sob as toneladas de concreto e ferro dos edifícios que simplesmente vieram abaixo com os ataques aéreos. Com o verão se aproximando, essa tem sido uma das maiores preocupações de gente como Mustafa e tantos outros que estão retornando à cidade. Raqqa, como qualquer cidade desta região, tem uma vasta amplitude térmica. Nos meses de inverno, a temperatura pode chegar abaixo de zero e, no verão, próximo dos 50 graus. “Já começamos a sentir o cheiro forte nas últimas semanas”, diz Abu Abdo Mahmud, um comerciante de Raqqa que reabriu sua loja há dois meses.

YB Rocha/Agência Pública
Raqqa foi declarada livre do Estado Islâmico em outubro doano passado, mas cada rua, cada corredor, cada casa podeconter uma armadilha mortal deixada pelos militantes dogrupo islâmico ou pela munição disparada pela coalizão

Mahmud anda preocupado com os mosquitos. Ele sabe que logo os insetos estarão por toda a cidade, e a probabilidade de doenças se espalharem são assustadoramente altas. “Ninguém veio nos ajudar aqui em Raqqa, só os Médicos Sem Fronteiras. Por que os Estados Unidos não estão aqui reconstruindo o que destruíram?”, pergunta. Mahmud é um homem rico e conservador. Sua loja está bem decorada, e um gerador próprio lhe fornece o luxo de ter luz o dia todo. Na TV, imagens de Meca se repetem incessantemente em um canal islâmico. Rodeado por filhos e netos, ele diz que a saída do Estado Islâmico foi boa para a cidade. Ninguém, diz ele, aguentava mais a opressão dos jihadistas, em especial os guerrilheiros estrangeiros, que se sentiam superiores por aderirem à guerra santa. “Os piores eram os tunisianos e marroquinos”, diz ele. “Não respeitavam as mulheres e fumavam haxixe escondidos.”

O senhor de olhar calmo, fala mansa e com aparência mais jovem do que os seus 70 anos compartilha de uma teoria conspiratória que anda ganhando força depois de tanta destruição, morte, sofrimento e, agora, o abandono. Mahmud acredita que o objetivo final dos Estados Unidos nesta guerra é destruir o Islã. “Todos sabem que esses homens que vieram para cá foram mandados pela América e pela Europa”, diz ele com a anuência dos parentes. “Eles só precisavam de uma desculpa para nos destruir e agora eles a têm”, afirma, enquanto seu filho, Abdulah, complementa: “Eles querem punir Raqqa porque esta é uma cidade justa. Podiam ter retirado o Daesh daqui sem fazer o que fizeram”.

Como quase todos os moradores dessa região central de Raqqa, Abdulah frequenta a mesquita de Al-Fawaz, que era um dos principais pontos de divulgação de ordens do Estado Islâmico nas pregações das sexta-feiras e também ficou danificada durante a batalha. Paredes foram destruídas, a cúpula, esburacada, e apenas alguns tapetes velhos e sujos cobrem o chão onde os fiéis se reúnem cinco vezes ao dia para orar em direção a Meca. Os ventiladores destruídos e amassados pelas explosões continuam ali, como uma espécie de lembrança da violência que varreu essa região.

YB Rocha/Agência Pública

Quase seis meses após o fim das batalhas, Raqqa continua repleta de minas, bombas e artefatos militares que não explodiram

Após meses fechada, a Al-Fawaz voltou a funcionar há alguns meses. Os moradores se uniram e conseguiram recuperar parte do que havia sido destruído. Aqui, quase todos concordam com a teoria de Mahmud: há uma guerra mundial contra o Islã e os Estados Unidos a lideram. “Olhe em volta: como alguém pode achar que essa não é uma guerra contra o islamismo, contra os ensinamentos do Profeta”, questiona Abu Ahmed, um comerciante de roupas de 65 anos que acabara de sair de sua oração da tarde. “Eles conseguiram a desculpa perfeita para nos atacar. Eles criaram o Daesh, ou você realmente tem alguma dúvida disso?”, me diz, exaltado e emocionado, ao descrever as belezas desta cidade, “a mais bela e importante do Eufrates”. “Os americanos destruíram tudo e nos abandonaram”, diz Ahmed.

Raqqa vive em uma espécie de limbo legal para as organizações de auxílio humanitário. Como está sob o poder de uma milícia não reconhecida pelo governo de Damasco e apoiada pelos Estados Unidos, presentes de forma ilegal em território sírio, poucas organizações conseguem doações para desenvolver projetos aqui. O presidente Donald Trump cortou cerca de US$ 250 milhões que estavam destinados à reconstrução da infraestrutura de Raqqa, prometida pelo Exército americano. Em uma reportagem da revista New Yorker, assessores próximos do presidente afirmam que Trump diz não entender por que ele tem de construir pontes na Síria e não em Wisconsin. A ponte que liga as duas partes da cidade divididas pelo rio Eufrates continua destruída.

Não é de agora que Raqqa se sente abandonada. Distante quase 500 quilômetros de Damasco, a cidade sempre foi vista como um enclave de sunitas conservadores por alauítas como Bashar al Assad. Considerada um obstáculo em um país que tentava ser mais e mais secular, Raqqa recebeu o Estado Islâmico quase com alívio. Assim como ocorreu em Mossul, no Iraque, boa parte dos moradores viu a chegada dos militantes islâmicos como uma chance de as coisas melhorarem. “No começo achamos que eles eram bons, nos prometeram uma vida melhor, mas então vieram as decapitações, as mortes”, diz Ahmed. “O Islã é uma religião de paz. O que eles faziam não era certo.”

Raqqa foi declarada livre do Estado Islâmico em outubro do ano passado, mas, quase seis meses após o fim das batalhas, a cidade continua repleta de minas, bombas e artefatos militares que não explodiram. Cada rua, cada corredor, cada casa pode conter uma armadilha mortal deixada pelos militantes do grupo islâmico ou pela munição disparada pela coalizão. Só entre outubro do ano passado e janeiro deste ano, cerca de 200 pessoas morreram vítimas de explosões acidentais na cidade. Quase que diariamente há casos de novas vítimas; muitas delas, não fatais. Os Estados Unidos estimam que haja dezenas de milhares de explosivos ativos na cidade neste momento.

Além das bombas verdadeiras, moradores de Raqqa que ainda não conseguiram voltar para suas casas estão instalando bombas falsas na tentativa de desencorajar invasores. Shamsa Ahmad Shawkn, de 65 anos, adotou essa tática quando descobriu que um homem estava morando no que sobrou de sua casa. “Nós o expulsamos de lá e espalhamos bombas falsas por toda a casa, até que tivéssemos dinheiro para deixá-la em condição de ser habitada. Há um mês Shamsa voltou para Raqqa com o marido, duas filhas e três netos. Eles se revezam em um ponto improvisado de venda de combustíveis, bem em frente à praça Naim, famosa por ostentar a cabeça de homens decapitados pelo Estado Islâmico.

Abdulsaman Raji, um ex-açougueiro de 32 anos, garante que ele não precisa nem chegar perto para identificar se uma bomba é falsa ou verdadeira. “Só de olhar eu já sei”, vangloria-se. Ele passa os seus dias sob a sombra de uma pequena torre no centro de uma das praças mais movimentadas de Raqqa, onde homens ficam em busca de trabalho. Oferecem dois tipos de serviço: retirada de entulhos e desativação de minas ou bombas. “As pessoas estão voltando para casa e encontram esses explosivos e não sabem o que fazer com eles”, comenta Raji. Ele se diz um desminador profissional, mas não revela o preço do serviço. “Depende da quantidade, da dificuldade”, me diz ele.

Seus colegas contam que Raji ainda é um iniciante e está tentando tomar o lugar de Ahmed Abdo, conhecido como o melhor homem para desativar minas em Raqqa. “Ele, sim, era bom. Ele, sim, sabia qual era falsa e qual era verdadeira apenas com o olhar”, afirma um guarda que controla o trânsito por ali e acompanha o vai e vem do mercado de trabalho. Talvez tenha sido a fama, a autoconfiança exacerbada, talvez tenha sido só descuido. Ninguém ao certo sabe o que aconteceu, mas, há mais ou menos um mês, Abdo errou. Foi feito em pedaços quando tentava desativar uma bomba caseira em uma mesquita não muito longe dali.

Agência Pública

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